Sobre o carnaval

                                                                        Sambódramo Anhembi

Se você é um crítico feroz do carnaval e costuma usar o argumento de que o ano no Brasil só começa quando essa data termina, provavelmente desconhece a magia dessa época e nunca transcendeu com o samba.

Ontem, dia 13, tive o prazer de saber o que é desfilar numa escola de samba, pelo menos tive a prévia disso (já que era ensaio geral no sambódromo do Anhembi).  Pra quem não sabe, vou desfilar esse ano na escola de samba Mancha Verde, estarei na ala Romeu e Julieta com a minha namorada.  A razão da ala existir é devido uma homenagem ao escritor Willian Shakespeare, fazendo alusão ao resto do enredo da escola: Gênios e suas descobertas geniais.

Agora tenho a maturidade suficiente pra entender o porquê da comoção do país nessa data. Entendo que nesses dias, questões sociais que implicam a desunião da sociedade e refletem no individualismo, não ocorrem com tanta tendência como no cotidiano. O carnaval não é ciência isolada, existe nela a consciência da importância do coletivo.

Poucas vezes na minha vida, como no ensaio do sambódromo testemunhei num mesmo espaço centenas de pessoas respirando o mesmo objetivo, sorrir e ser levado pela melodia do enredo. Existe a vontade de ganhar, mas isso acaba virando conseqüência perto da magnitude que a atmosfera do ambiente demonstra.

Sigo no pensamento do teórico Mikhail Bakhtin em sua tese da “carnavalização”, no qual defendia que festas populares (carnaval) era a evidência da superação do discurso precário em cima do discurso dominante. Tudo bem, que hoje em dia, o carnaval abriu espaço para elite se apropriar dele, em alguns casos, mas isso é retrato da contemporaneidade (capitalismo), porém, existe uma conjunção de classes sociais em uma mesma atividade, sem menção alguma do poder monetário.

A conclusão é a seguinte: no carnaval esquece-se o estado social. Lá por segundos se consegue levar o ser humano a sua plenitude, como no cinema, teatro, ópera, futebol, argumentos que tira do ser humano toda sua energia. Olha que isso foi somente uma previa, no dia 4 de março (data do desfile) vou conseguir parar o tempo, por alguns minutos.   

Não vi Pelé mas vi Ronaldo

                                                    (Sebastião Moreira/EPA)  

Segunda feira, dia 14 de fevereiro de 2010, exatamente as 12:50 Hrs, o jogador de futebol Ronaldo Nazário anunciou numa entrevista coletiva que estava encerrando sua carreira.

Sou fã declarado de Ronaldo e levanto a tese de que ele ostenta a posição de segundo jogador mais importante pro mundo do futebol, só perde para Pelé. Não, estou me referindo em termos técnicos, mas sim, relevância. É evidente, que o fenômeno é uma maquina de gerar dinheiro. Mas, além disso, acho que existe na figura do craque um apelo fenomenal, que faça quase todos os indivíduos se aproximar do futebol, de alguma maneira possível.

Essa aproximação é feita da seguinte maneira: existem culturas e indivíduos distintos e respectivamente distantes do esporte (futebol), no entanto, existem casos isolados, como o dele que conseguem romper com esse distanciamento e adentra numa cultura, ou seja, em outras palavras, além de Pelé, Ronaldo conseguiu ultrapassar a barreira do futebol para somente os interessados e ir além, se tornando referência para que não saiba nada do esporte. Agora não importa da forma que foi realizado essa popularização, se ocorreram por escândalos, superações, vendas de produto, mas um fato é ele tem relevância suficiente para parar uma guerra. Hoje, no oriente é uma das figuras brasileiras mais conhecidas por lá.

Para se ter a idéia da relevância, ele já participou de um episodio da serie “Os Simpsons”, o que é extremamente difícil para alguém que não seja americano. Não que o fato dele ter tido menção no seriado animado faça dele uma pessoa mais importante, porém mostra evidências do rompimento da barreira do cidadão de um lado somente, integrante de uma categoria específica, onde sua ação só teria relevância dentro do nicho que compõe, para alguém que consegue ir além e se torna noticia alcançando uma maioria. O cara tem relevância, sua decisão de parar de jogar futebol não só repercutiu no caderno de esporte, mas virou pauta integral.

Hoje foi sim um momento histórico, sobre um ser humano fenomenal dentro da sua profissão que conseguiu marcar história e se tornar um mito. O futebol pode já ser mencionado como o pós-ronaldo. Mas, para a felicidade dos admiradores do esporte, está nascendo outra figura que será tão grande como o fenômeno, seja dentro ou fora do campo, Neymar. A cada jogo e a cada fato, vejo nele um cara capaz de ir além.

Cisne Negro (Black Swan, EUA, 2010)

Começa assim, com um sonho. Por alguns instantes, ela torna-se o que é seu por direito, mas que a vida ainda não tornou real. Seria uma obsessão florescendo? Nina (Natalie Portman) acorda e se execercita. Ao mesmo tempo em que cuida do bem mais precioso que possui: o corpo - conta a mãe (Barbara Hershey) que sonhou que estava dançando o prólogo do espetáculo "O lago dos cisnes". 

Prestes a encerrar a carreira de bailarina, Beth (Winone Ryder) sente a decadência se aproximando da alma. O oposto ocorre com Nina, que esboça talento e ainda respira juventude. Uma despedida cheia de lamentações e uma chegada cheia de esperança.

O diretor da companhia de balé - Thomaz (Vincent Cassel) montará o espetáculo de que Nina havia sonhado. "O lago dos cisnes" do compositor Pior Llitch Tchaikovsky. Com a aposentadoria  da antiga bailarina, abre-se a vaga para o papel principal. A pequena promessa sonha em conquistar o que é seu por direito. Todos da companhia sabem o quanto a garota é perfeita para o papel de cisne branco, entretanto não para o papel de cisne negro, já que nesse tipo de encenação é preciso transcender, ir além da técnica.

Mesmo com as criticas do diretor, a bailarina desarma-se da condição de dependente para reivindicar a sua vontade de fazer o papel principal Por alguns segundos consegue ter a imponência que a personagem necessita. Começa ali, a sua incessante procura pela independência.

No entanto, a garota é vitima constante do conservadorismo. Disciplinada, porém insegura, estática, inclusa de criar novos caminhos, atônita segue numa cartilha. Em sua vida nunca bebeu ou se drogou, em momento algum tentou ganhar vantagem em cima da desordem. Para alcançar seu objetivo teria que reaprender a viver?

Apesar da lacuna aparentada, ganha o papel. Hora que Esboça pela primeira vez estar alegre, algo tão incomum em sua vida.

Nota-se que além de triste, parece lutar diariamente contra o afogamento, sente a falta do ar no meio de tanta cobrança, soa até clichê, mas sua vida é assim: sofre cobranças da mãe que outrora foi bailarina e permaneçe frustrada pelo fracasso e cobranças também do seu diretor que cria desordem para buscar a perfeição da moça.

"Quero ser perfeita" - a todo instante essa afirmação parece estampar o seu semblante. É diário, cotidiano. 

Quem nunca se tornou seu próprio inimigo?

Ela é o seu próprio antagonista, demoramos para sacar isso. Mas, enquanto permanece a dúvida (depede do seu ponto de vista) chega Lilly (Mila Kunis), também bailarina, o inverso, pelo menos de antemão mostra-se assim, não é notorio de o porque se aproxima, até porque oras sua entrada  parece ser para mostrar o contraponto de personalidades que existem ali, porém, em outros momentos demonstra-se tão obsessiva quanto à protagonista. Mas o que?  É verdade o que estamos vendo na tela?

Nina tem cuidado especial com o corpo, em suma alinha-se a um padrão único. Na sua existência, nunca soube experimentar, segue reta na "linha certa" do seu mundo sem conhecer a amplitude que ele pode gerar. Thomaz serve para destravá-la e encorajá-la. No intuito de refletir independência.

Para que tanto conhecimento técnico se não há liberdade? Ela corre contra o tempo para encontrar o seu demônio, enfrentá-lo e chorar. Sente o processo da redescoberta de si. A cada segundo sabe que está chegando aonde é seu por direito.

Portanto, enfrenta a sua derradeira briga, em seguida já não é mais Nina, tornou-se a representação perfeita da cria de Tchaikovsky, o cisne negro. Na verdade se formos considerar o recurso da "metalinguagem", ela deixou de ser ela mesmo, quando ganhou o papel e começou a buscar o seu lado negro.


O mundo para: não importa da onde vemos ou quem somos, juntos ou não, agora ou depois, testemunhamos a perfeição de passos em sincronia direta e perfeita com a música. A promessa evoluiu pra realidade - encantando todos presentes. Natalie Portman conseguiu, chegou ao ápice de uma atuação. Darren Aronofsky conseguiu, chegou ao ápice de uma direção.

Não se engane, não é sobre a trama de uma bailarina obcecada por um papel. É sobre a difícil tarefa de viver.

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